Pesquisa da UFAM revela potencial farmacológico no látex da sorva amazônica
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A riqueza da biodiversidade amazônica segue impulsionando descobertas científicas com potencial impacto global. Entre eles, um fruto pequeno, adocicado, redondo, de coloração verde e casca fina, a sorva, alimento da região amazônica. Tradicionalmente utilizada por comunidades ribeirinhas tanto na alimentação quanto na medicina natural, a sorva também possui uma forte importância histórica na alimentação de trabalhadores da floresta.
Historicamente, o fruto era consumido por seringueiros durante longas jornadas na mata, muitas vezes sem acesso a outros alimentos, funcionando como parte essencial da nutrição diária desses trabalhadores. Segundo dados do Ministério da Saúde, 100 gramas de sorva contêm aproximadamente 358 quilocalorias, 30,4 g de carboidratos e 25,6 g de gorduras, o que reforça seu alto valor energético. Além disso, a sorva possui ampla distribuição geográfica, sendo encontrada nos estados do Amazonas, Pará, Amapá e Rondônia, além de regiões da Guiana, Colômbia e Peru. O fruto cresce geralmente em áreas de floresta densa e matas virgens, podendo variar em tamanho — desde pequenas estruturas do tamanho de uma uva até frutos semelhantes a um limão.
Outro aspecto relevante é o modo de consumo tradicional: a sorva é frequentemente retirada da natureza para consumo direto, sendo possível extrair dela o látex comestível. Esse látex pode ser ingerido puro ou diluído em água, prática comum em comunidades ribeirinhas. Um exemplo recente vem da pesquisa conduzida pela mestre em Biotecnologia Pricilla Louise Leite da Silva, que investigou as propriedades do látex da Couma utilis.

Em sua pesquisa, Pricilla explica que o trabalho buscou justamente preencher essa lacuna de conhecimento:
“A Amazônia possui uma biodiversidade enorme, mas ainda pouco explorada cientificamente. A Couma utilis é uma espécie bastante utilizada por populações locais, o que despertou o interesse em investigar seus compostos e efeitos biológicos com base científica,” relatou.
O estudo teve como objetivo compreender quais substâncias estão presentes no látex e quais efeitos biológicos ele pode apresentar. Para isso, foram utilizadas técnicas laboratoriais avançadas, como cromatografia, ressonância magnética nuclear e microscopia de força atômica.
“Nós coletamos o látex da planta e realizamos diferentes análises laboratoriais para caracterizar suas frações químicas e investigar sua atividade biológica”, explica a pesquisadora.
As análises permitiram identificar diferentes compostos, incluindo o acetato de α-amirina, substância conhecida por apresentar propriedades biológicas relevantes. Além da caracterização química, a pesquisa também avaliou a atividade antimicrobiana do látex. Os resultados indicaram que a substância foi capaz de inibir o crescimento de microrganismos como Staphylococcus aureus e Candida albicans, ambos associados a infecções humanas.
“Observamos uma atividade antimicrobiana relevante, especialmente contra esses microrganismos, o que indica um potencial promissor para aplicações farmacológicas”, destaca Pricilla.
A descoberta reforça o interesse científico em produtos naturais da Amazônia como fonte de novos compostos bioativos.
O estudo também evidencia o papel estratégico da região amazônica como um vasto campo de pesquisa ainda pouco explorado. Estima-se que apenas uma pequena parcela das espécies vegetais da região tenha sido estudada sob o ponto de vista químico e biológico.
“A Amazônia é um verdadeiro laboratório natural. Existe um enorme potencial para descobertas científicas que podem beneficiar não só o Brasil, mas o mundo inteiro”, afirma a pesquisadora.
Além do avanço científico, a pesquisa também contribui para a valorização do conhecimento tradicional das populações ribeirinhas, que já utilizam a sorva há gerações. Segundo Pricilla, a trajetória acadêmica foi marcada por desafios, mas também por aprendizado e apoio:
“Foi uma jornada de muito aprendizado. Tive apoio fundamental de orientadores, colegas e familiares. Fazer ciência exige persistência, mas é muito gratificante contribuir para o conhecimento,” destacou.
Mais do que ampliar o conhecimento sobre uma espécie específica, o estudo abre caminho para novas investigações e possíveis aplicações práticas, como o desenvolvimento de medicamentos e produtos naturais.
“Espero que minha pesquisa incentive novos estudos com espécies amazônicas e que, no futuro, esse conhecimento possa gerar aplicações reais para a sociedade”, concluiu.
Em um cenário global que busca soluções sustentáveis e inovadoras, a ciência produzida na Amazônia reforça seu papel estratégico ao transformar biodiversidade e saberes tradicionais em conhecimento científico com potencial de impacto mundial.
