Megaoperação no Rio entra para a história como a mais letal do estado
Uma megaoperação das forças de segurança do Estado do Rio de Janeiro resultou em ao menos 64 mortos e 81 prisões na manhã de terça-feira (28), nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital fluminense. A ação, batizada de Operação Contenção, é considerada a mais letal da história do estado e tinha como alvo principal a facção criminosa Comando Vermelho (CV).
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, cerca de 2,5 mil agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar participaram da ofensiva, que contou com o apoio de blindados, helicópteros e drones. O objetivo, segundo o governo estadual, era desarticular a estrutura de comando da facção responsável por controlar o tráfico e ordenar ataques em diversas comunidades da cidade.
Confrontos e balanço parcial
Os confrontos se estenderam por mais de 12 horas e deixaram rastros de destruição nas comunidades atingidas. Além dos 64 mortos — entre eles quatro policiais, sendo dois do BOPE e dois da Polícia Civil —, as autoridades apreenderam 93 fuzis, meia tonelada de drogas e dezenas de granadas.
Devido à intensidade dos tiroteios, escolas suspenderam as aulas e vias expressas foram interditadas. Moradores relataram pânico e dificuldade para circular nas regiões durante a operação. “Entrei na estação de trem para fugir dos tiros”, contou uma moradora da Penha em entrevista à CartaCapital.
A ação mais letal da história do Rio
Com o número de mortos confirmado até agora, a Operação Contenção supera o episódio do Jacarezinho (2021), que havia deixado 28 mortos, e se torna a operação policial mais violenta já registrada no Rio de Janeiro. O governador Cláudio Castro (PL) classificou a ação como um “ataque ao narcoterrorismo” e afirmou que o Estado “agiu sozinho”, sem apoio do governo federal.
“O Rio está enfrentando organizações criminosas com estrutura de guerra. Esta foi uma resposta necessária”, disse Castro durante cerimônia em homenagem aos policiais mortos.
Repercussão política e social
A operação dividiu opiniões entre autoridades e especialistas. Parlamentares da bancada fluminense na Câmara Federal criticaram a ausência de coordenação entre os governos estadual e federal. Outros apontaram possíveis abusos de força e riscos humanitários.
Entidades de direitos humanos e defensores públicos solicitaram informações detalhadas sobre as mortes e pediram que o Ministério Público acompanhe as investigações.
“É fundamental garantir a transparência e a responsabilização em uma ação dessa magnitude”, afirmou a Defensoria Pública da União em nota.
Nas comunidades, o clima é de medo e incerteza.
Moradores relatam destruição, falta de transporte e insegurança quanto à continuidade das operações. A Secretaria Municipal de Educação confirmou que 48 escolas permaneceram fechadas até nova avaliação da Polícia Militar.
Especialistas questionam eficácia
Analistas em segurança pública afirmam que, embora a operação tenha representado um duro golpe contra o tráfico, sua eficácia a longo prazo é incerta. Segundo o sociólogo e ex-secretário de segurança José Cláudio Alves, “ações de confronto em larga escala tendem a causar desorganização momentânea, mas não atingem o poder financeiro nem as redes de recrutamento das facções”.
Outros especialistas ressaltam a necessidade de políticas públicas que combinem repressão qualificada com investimento social em áreas dominadas por grupos criminosos.
Próximos passos
O governo do estado anunciou que novas operações devem ocorrer “sem data prevista” e prometeu intensificar a presença policial nas comunidades do Alemão e da Penha nas próximas semanas. O Ministério Público do Rio informou que acompanhará as investigações sobre as mortes e o uso da força pelos agentes.
A megaoperação desta terça-feira marca um dos episódios mais intensos da história recente da segurança pública fluminense — e reacende o debate sobre os limites da ação policial, a proteção da população civil e o futuro do combate ao crime organizado no Rio de Janeiro.
Foto: BBC News
