Boi Caprichoso detalha alegoria da jornada do pajé ao topo do céu em ritual de iniciação Xikrin
Foto: Divulgação
O Ritual de Iniciação Xamânica Xikrin é o ritual indígena que o Boi Caprichoso levará à arena na terceira noite do 59º Festival de Parintins. Inspirada na cosmologia do povo Xikrin, a alegoria retrata a jornada espiritual de formação do xamã, que atravessa o portal Inhum-djêk, uma imensa teia que liga céu e terra, até alcançar Okti, o Grande Gavião-Real, considerado o xamã primordial.
Ao vencer essa travessia e receber os poderes sagrados, o iniciado torna-se capaz de transitar entre diferentes dimensões do universo, dialogar com as forças espirituais e atuar como mediador entre humanidade, natureza e sobrenatural, garantindo proteção, saúde, equilíbrio e fartura para seu povo.

A alegoria é assinada pelo artista Jucelino Ribeiro e possui 40 metros de boca de cena, 23 metros de altura e 18 metros de fundo, e é dividida em 12 módulos. “O ‘Xikrin’ está representando a passagem do pajé até o céu. Depois de inalar o paricá (pó sagrado usado por xamãs em rituais espirituais), ele tentava, no imaginário dele, subir a grande teia, mas ele não conseguia, não alcançava o povo dele. Depois de muita luta, ele consegue chegar ao grande gavião-real, que está no topo do céu. Lá ele tem toda a visão do local. Tinha onças, os bichos das grutas, os seres aquáticos”, afirma Ribeiro.
Assim que o pajé consegue alcançar o grande gavião, ainda segundo Jucelino, ele recebe todos os poderes naturais do grande condor, como dons de visão e de cura. Além deste poderes, outro deles é a capacidade de levitar por cima das feras e chegar até a aldeia, onde ele vai celebrar e fazer uma grande festa com o povo Xikrin. A alegoria vai trazer a apresentação do pajé Erick Beltrão e foi construída em três meses, entre 15 dias a 20 dias para a confecção da maquete inicial, partindo para a etapa da construção do projeto alegórico em si.
Expectativas

A alegoria retrata no seu módulo principal o grande gavião-real, e é a partir da bicada deste gavião nas costas do pajé que o ritual começa. Questionado sobre o que o inspira na hora de compor um projeto alegórico desta dimensão, Jucelino afirma que sempre teve vontade de construir aranhas em alegorias – sendo este um dos animais presentes no projeto. “Acho muito bonito o movimento das pernas, e sempre quis trabalhar com palha de caranã, que simula a pelugem da aranha. Isso foi muito feliz junto da vontade que eu tinha, e esse ano eu fui agraciado”, pondera ele.
O artista explica ainda que, por conta da magnitude da alegoria, cada módulo possui um artista responsável dentro da gerência dele. “São módulos muito pesados, então eu conto com todas as equipes já disponíveis das outras alegorias para fecharmos com chave de ouro. Cada módulo é gerido por um artista que trabalha com sua equipe, e a gente confia totalmente, assim como nós ajudamos os outros na primeira, na segunda, na terceira noite e vice-versa. O conjunto todo se ajuda”, completa ele.
