19 de Abril: Dia dos Povos Indígenas reforça luta por direitos e valorização cultural no Brasil
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Celebrado em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas vai além de uma data comemorativa. O momento propõe uma reflexão sobre a valorização das culturas originárias, a garantia de direitos e os desafios enfrentados pelos povos indígenas no Brasil.
Instituído em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, o 19 de abril surgiu originalmente como “Dia do Índio”, com o objetivo de reconhecer a importância dos povos originários na formação do país. A escolha da data remete ao Congresso Indigenista Interamericano de 1940, realizado no México, que reuniu lideranças indígenas e autoridades de diversos países das Américas para discutir políticas voltadas a essas populações.
Com o passar dos anos, a data passou por um processo de ressignificação, acompanhando mudanças sociais e políticas no Brasil. Em 2022, a nomenclatura foi oficialmente alterada para “Dia dos Povos Indígenas”, reforçando a pluralidade cultural e a diversidade existente entre essas populações, que somam mais de 300 povos e centenas de línguas no país.
A mudança também reflete uma transformação na forma como os povos indígenas são compreendidos, deixando de lado uma visão homogênea e estereotipada para reconhecer suas especificidades históricas, culturais e sociais. Esse novo olhar dialoga com avanços garantidos pela Constituição Federal de 1988, que reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre seus territórios, suas culturas e suas formas de organização social.
Para a antropóloga Socorro Batalha, o Dia dos Povos Indígenas representa uma oportunidade de dar visibilidade às realidades vividas por essas populações.
“Mais do que uma simples celebração, a data representa uma oportunidade de evidenciar as reivindicações e realidades vividas pelos povos indígenas em diferentes contextos, dando destaque às suas vozes”, afirma.

A historiadora indígena e coordenadora do Movimento de Estudantes Indígenas do Amazonas (MEIAM), Izabel Cristine Munduruku, reforça que a data também simboliza resistência histórica.
“O Dia dos Povos Indígenas, no contexto atual, parte de uma lógica de afirmação dos povos indígenas enquanto existência e resistência. Há mais de 12 mil anos vivendo nesse território, seguimos enfrentando desafios diários para afirmar nossa presença em um espaço que ocupamos milenarmente, mas que ainda é constantemente apagado”, destaca.

A historiadora ressalta que a data também tem papel fundamental na valorização da identidade indígena frente a um histórico de violências.
“Estamos falando de mais de 305 povos indígenas que sobreviveram a um processo violento de colonização. Essa data tem uma profunda importância nesse processo de afirmação identitária”, afirma.
A mudança na nomenclatura da data também é apontada como um avanço importante.
“A alteração aconteceu a partir da atuação dos movimentos sociais, com a intenção de superar uma perspectiva colonial e valorizar a diversidade dos povos indígenas, incluindo suas tradições, saberes, manifestações e modos de vida. A utilização do termo “povos” remete à organização coletiva e à resistência histórica, destacando que se tratam de grupos originários distintos, com direitos próprios, além de reconhecer de forma mais ampla a diversidade existente”, explica Socorro.
Izabel complementa:
“Essa mudança é um marco numa virada de concepção sobre como a sociedade nos enxerga. A língua cria mundos, então essa transformação tem um papel educativo importante”, pontua.
Ela também destaca a importância da representatividade política nesse processo, mencionando a atuação de Joênia Wapichana.
“Essa mudança só foi possível graças à presença de uma mulher indígena no Congresso. Isso mostra a importância de estarmos nesses espaços de poder para promover transformações reais”, pontua.
Entre os principais desafios enfrentados pelos povos indígenas, estão questões territoriais, sociais e políticas.
“Os povos indígenas lidam com múltiplos obstáculos, como invasões de terras, conflitos e ameaças à garantia de direitos. Como consequência, há poluição dos rios por substâncias tóxicas, danos significativos ao meio ambiente e dificuldades crescentes para a manutenção das formas tradicionais de subsistência, o que também impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida dessas populações” afirma Socorro.
Na Amazônia, esses problemas se intensificam com a pressão de atividades ilegais.
“Práticas como o garimpo, o desmatamento e a exploração irregular impactam diretamente o meio ambiente e a qualidade de vida dessas populações”, ressalta a antropóloga.
Apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. De acordo com a historiadora, a principal preocupação está relacionada à garantia de direitos.
“Os direitos dos povos indígenas seguem sendo ameaçados constantemente, principalmente por propostas que flexibilizam a proteção dos territórios. Tudo gira em torno do nosso direito de existir enquanto povos indígenas no Brasil”, afirma.
Ela também chama atenção para debates como o marco temporal, que impactam diretamente essas populações.
“Há tentativas de tornar legais medidas que já foram consideradas inconstitucionais, o que representa uma ameaça direta à nossa existência, tanto nos territórios quanto nos espaços urbanos”, alerta.
Mesmo com avanços previstos na Constituição Federal de 1988, a efetivação desses direitos ainda enfrenta entraves.
“Apesar do reconhecimento legal, a aplicação desses direitos encontra obstáculos no cenário político e jurídico atual. Embora tenham ocorrido avanços institucionais, como a criação do Ministério dos Povos Indígenas e a retomada de processos de demarcação, ainda persistem lacunas importantes, especialmente no fortalecimento de políticas públicas”, explica Socorro.
Izabel reforça que os povos indígenas devem ser vistos como parte da solução para questões sociais e ambientais.
“A sociedade ainda nos enxerga como problema, quando, na verdade, a resposta somos nós. Nossos territórios, nossas culturas e nossos modos de vida são fundamentais para a manutenção da vida”, finaliza.
Por: Camili Vitória.
